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Julieta Lanteri: a médica ativista que lutou pelos direitos das mulheres

Médica e feminista, ela atuou pelo sufrágio feminino na América Latina e teve participação fundamental na conquista dos direitos civis das mulheres

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Podemos dizer que Julieta Lanteri foi uma figura revolucionária, cuja história não reúne apenas relatos de conquistas individuais, mas um capítulo fundamental nos estudos de gênero.

Médica, feminista e ativista do sufrágio feminino, ela se destacou na época em que as mulheres eram sistematicamente marginalizadas e suas vozes silenciadas. Por isso, as ações pioneiras de Julieta continuam a ressoar nos debates contemporâneos sobre igualdade.

Neste artigo, vamos mergulhar na vida de Julieta Lanteri, explorando sua trajetória pessoal, acadêmica e profissional, além de entender como se deu seu ativismo na Argentina. Entre várias causas que defendeu, estavam a reforma política, o acesso à saúde e o fim do trabalho infantil.

Biografia de Julieta Lanteri

Julieta Lanteri (1873-1932) foi uma médica e ativista ítalo-argentina, que ficou conhecida, principalmente, por seu trabalho em prol do sufrágio feminino.

Nasceu na Itália, na região de Cuneo, mas se mudou para Buenos Aires (Argentina), aos seis anos, com o pai Pierra-Antoine Lanteri, a mãe Mattea Guido e a irmã Regina.

De lá, seguiram para La Plata, uma província de Buenos Aires, onde Julieta frequentou o Colégio Nacional de La Plata. Na época, essa era uma instituição exclusiva para homens, o que demonstra o contexto desigual ao qual meninas e mulheres eram submetidas.

Em 1898, ela se formou como farmacêutica pelo Colégio Nacional de La Plata e, após concluir o bacharelado, entrou para a Universidade de Buenos Aires, onde estudou Medicina. Em 1907, então, Julieta tornou-se a 6ª mulher a receber o diploma de médica na Argentina.

Pioneirismo na Medicina e no feminismo

Depois de terminar o curso, Julieta fez viagens frequentes à Europa por mais de uma década, com o objetivo de trabalhar em hospitais e aprender mais sobre o atendimento médico nas instituições de saúde e nas escolas.

Ao voltar à Argentina, trabalhou para implementar reformas e melhorar o atendimento a crianças e mulheres, em especial, às mães solo. Além de atuar em hospitais, ela integrou a Associação Médica Argentina, onde fornecia suporte médico e psiquiátrico a mulheres e crianças. 

Seu pioneirismo não se deu apenas na Medicina, visto que ela se engajou ativamente nos movimentos feministas, na luta pelos direitos das mulheres de maneira geral:

  • 1905 - Mobilizou-se pela a criação da Associação Argentina de Livre Pensamento, que defendia a laicidade do Estado;

  • 1909 - Fundou a Liga Nacional de Mulheres Livres Pensadoras;

  • 1910 - Junto com María Abella de Ramírez (1866-1926), professora, jornalista e feminista uruguaia, criou o jornal La Nueva Mujer, uma espécie de porta-voz da Liga Feminista Nacional.

    Neste mesmo ano, organizou o 1º Congresso Feminino Internacional em Buenos Aires, quando se discutiu a cidadania feminina. Esse evento foi crucial para a visibilidade da questão do voto das mulheres no país.

    Também em 1910, Julieta tentou seguir a carreira acadêmica, mas seu pedido para ser professora universitária de Medicina foi negado. A justificativa era o fato de ela ser uma mulher estrangeira, o que a levou a tentar obter a nacionalidade argentina. Com mais uma negativa, Julieta resolveu se casar com Alberto Renshaw, 13 anos mais novo que ela, para conseguir se naturalizar.
  • 1911 - A médica e ativista aproveitou uma lacuna na legislação, que não especificava gênero para votação, e lutou judicialmente pelo seu direito de votar. Em 26 de novembro de 1911, Julieta Lanteri se tornou a primeira mulher sul-americana a votar. 

Lutas pelos direitos das mulheres

No final do século 19 e início do século 20, o movimento de mulheres por direitos eleitorais emergiu, motivado pelo interesse delas em participar das tomadas de decisões na sociedade.

A discussão do sufrágio feminino, que se concentrava nos países industrializados como Estados Unidos e Reino Unido, finalmente, chegou à América Latina. 

Porém, a luta pelos direitos das mulheres resultou em um longo processo até chegar na conquista do voto. No Brasil, isso se deu em todo o território apenas em 1934, enquanto na Argentina, somente em 1947 as mulheres puderam, oficialmente, participar da política. 

Primeira votação com participação de mulheres na Argentina, em 1951
Primeira votação com participação de mulheres na Argentina, em 1951 (Imagem: Reprodução Wikimedia Commons)

Tanto na Argentina quanto no Brasil, a conquista do voto feminino foi impulsionada por governos populistas (por Juan Domingo Perón e Getúlio Vargas, respectivamente), cuja principal característica era a ampliação dos direitos civis e políticos para amenizar disputas sociais. 

Sufrágio feminino

Em 1911, a prefeitura de Buenos Aires convocou os cidadãos a atualizarem seus cadastros eleitorais. O requisito era ser maior de idade, residente da cidade, trabalhar e pagar impostos. Não havia, portanto, qualquer distinção de gênero.

Diante disso, Lanteri tentou se registrar, mas esse registro foi negado. Depois, ela entrou na justiça e ganhou o processo, o que a colocou na posição de primeira mulher a votar na Argentina.

Julieta Lanteri votando
Julieta Lanteri votando pela primeira vez em 1911 (Imagem: Reprodução Wikimedia Commons/Arquivo Geral da Nação Argentina)

Mesmo com a conquista de Julieta, as mulheres ainda eram impedidas de exercerem sua cidadania na Argentina.

📌 Segundo o presidente da mesa, o professor e historiador Adolfo Saldías, Julieta repetia enquanto votava: “Os direitos não se mendigam, se conquistam!".

Em 1912, por exemplo, a Lei Sáenz Peña estabeleceu o voto secreto e obrigatório para os cidadãos do sexo masculino maiores que 18 anos. Porém, o cadastro eleitoral seria feito com base no alistamento militar. Dessa forma, a lei Sáenz Peña representou a legalização da exclusão das mulheres. 

Contra essas imposições, Julieta tentou se alistar no serviço militar para obter direitos políticos. Ela argumentou que, se o serviço militar era obrigatório para todos os cidadãos, então também deveria ser para mulheres. Sua requisição chegou à Suprema Corte argentina, mas foi negada. 

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A luta de Julieta Lanteri e centenas de outras mulheres se concretizou décadas depois, mas a ativista não conseguiu comemorar.

Ela morreu em 1932, aos 59 anos, vítima de atropelamento, em Buenos Aires. Dirigindo o carro, estava David Klapenbach, que pertencia à ultradireitista Liga Patriótica Argentina e tinha antecedentes criminais. Sua morte foi recebida com suspeitas por parte dos amigos e companheiros de causa.

Direitos civis e sociais

Para além da luta pelo sufrágio feminino, Julieta Lanteri se envolveu em causas defendendo direitos civis. Organizou o 1º Congresso do Bem-Estar da Criança e lutou por pautas em defesa de mulheres divorciadas e mães solteiras. 

Em 1919, Julieta fundou o Partido Feminista Nacional, que propunha, além a garantia dos direitos políticos às mulheres, a igualdade entre filhos legítimos e ilegítimos e o divórcio vincular, que permitia um novo casamento após o divórcio.

Ela também se candidatou como deputada nacional, com uma campanha baseada na implementação da licença maternidade, no subsídio por filho e na abolição da pena de morte.

Outras feministas argentinas estiveram ao lado de Julieta. São elas: Elvira Rawsone de Dellepiane, Petrona Eyle, Sara Justo, Alicia Moreau, Ernestina e Elvira López, Emilia Salza, María Teresa de Basaldúa e Alicia B. de Guillot. Juntas, em julho de 1920, apresentaram um projeto de revogação de todo artigo de lei que colocasse as mulheres em posição de inferioridade em relação aos homens. 

Além disso, argumentaram por direitos básicos para crianças mais vulneráveis, solicitando cantinas para crianças mais pobres, dormitórios para aquelas que vendiam jornais nas ruas e a criação de um lar para filhas de operárias.

📌 O contexto dessas solicitações foi o início do século 20, auge da Segunda Revolução Industrial, época na qual o trabalho infantil era legalizado. 

Apesar de todos os esforços, só houve avanço significativo na participação cidadã de mulheres com a Lei de Direitos Civis de 1926. Baseada em petições apresentadas pelas feministas 15 anos antes, com a nova lei, as mulheres não precisariam mais obter o consentimento do marido para trabalhar ou estudar.

Legado e reconhecimento

O sufrágio feminino foi conquistado em 1947, com influência do governo populista de Juan Domingo Perón e de sua esposa Eva Perón. Assim, as mulheres votaram, pela primeira vez, em novembro de 1951.

Manifestação em frente ao Congresso Nacional pela Lei do Voto para Mulheres, Buenos Aires, 1948
Manifestação em frente ao Congresso Nacional pela Lei do Voto para Mulheres, Buenos Aires, 1948 (Imagem: Reprodução Wikimedia Commons/Arquivo Geral da Nação Argentina)

Julieta Lanteri teve intensa participação nessa conquista e é reconhecida por isso. Seu pioneirismo nos estudos de gênero e na defesa do exercício da cidadania das mulheres ecoa até os dias atuais, com muitas homenagens:

  • em 2001, duas biografias da ativista foram lançadas em 2001, escritas respectivamente pelas jornalistas investigativas Araceli Bellota e Ana María De Mena;

  • em 2018, uma nova estação de metrô na capital argentina recebeu o nome de Julieta Lanteri, votado pelos moradores da região. A estação foi a primeira a ter nome de mulher na cidade de Buenos Aires. 

  • em 2023, o site de buscas Google fez uma homenagem à médica em seu 150º aniversário.
Doodle de Julieta Lanteri
Imagem: Reprodução/Google

Na aba de pesquisa da página inicial, um desenho representava Julieta e, ao clicar nele, os usuários eram encaminhados para um resultado de busca sobre a sufragista. 

Resumo: Julieta Lanteri

Confira um resumo das principais informações até aqui:

  • Julieta Lanteri (1987-1932) foi uma médica e ativista ítalo-argentina;
  • Ela se mudou para Buenos Aires aos 6 anos, onde se formou em Farmácia e Medicina;
  • Sobre sua atuação na área da saúde, ela se dedicou a reformas e suporte no tratamento de mulheres e crianças;
  • Seu engajamento na luta pelos direitos das mulheres foi bastante representativo, com a fundação de associações, organização de congressos e publicação de um jornal feminista;
  • Julieta foi a primeira mulher sul-americana a votar (1911), sendo um nome importante na luta pelo sufrágio feminino e direitos civis das mulheres;
  • Ela participou da fundação do Partido Feminista Nacional, por meio do qual batalhou pela pela igualdade entre os gêneros e por direitos básicos para crianças;
  • Como parte de um reconhecimento póstumo, Buenos Aires inaugurou uma estação de metrô em sua homenagem (2018).

Julieta Lanteri nos estudos de História e do movimento feminista

Toda a trajetória de Julieta Lanteri ajuda a compreender a luta por direitos políticos na América Latina, uma área importante para os estudos de gênero e da História recente.

Ela serve como estudo de caso sobre os impactos da legislação e das estruturas sociais na vida de mulheres em campos profissionais diferentes. Além disso, demonstra a importância da resiliência e da advocacia estratégica na luta por direitos iguais.

📌 As transformações na sociedade tiveram a participação de mulheres que lutaram pelo direito à cidadania, à educação e à liberdade para além da tutela de seus pais ou maridos. 

A vida de Julieta Lanteri é mais uma perspectiva sobre o papel das mulheres na história da América Latina. Ou seja, as estratégias usadas pela ativista ajudam a entender como as normas de gênero podem ser contestadas e reformuladas. Essas análises ainda se concentram entre pesquisadores na Argentina e são de mais fácil acesso para quem domina a língua espanhola. 

Ainda assim, Julieta Lanteri é um ponto de referência para os estudos de gênero contemporâneos. 

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Bárbara Donini

Analista de História no Aprova Total. Licenciada (Udesc) e mestre (UFSC) em História, tem experiência na área de educação, no Ensino Fundamental e em curso pré-vestibular.

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