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Racismo no futebol: como atuar no combate à discriminação

Da origem do futebol às leis atuais, descubra como o Judiciário, as sociedades esportivas e os cidadãos podem enfrentar o racismo nos estádios e fora deles

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Casos de racismo no futebol são manchetes frequentes, no Brasil e no mundo, expondo uma realidade que vai muito além das quatro linhas: a discriminação racial que persiste em espaços que deveriam celebrar a diversidade e o talento.

Ofensas, insultos, gestos e ataques direcionados a jogadores, torcedores e profissionais negros nos estádios e ambientes esportivos, são reflexos do racismo estrutural presente na sociedade. E apesar dos avanços legais e institucionais - por parte dos times -, ainda há muito a ser conquistado.

Neste texto, exploramos um pouco sobre o histórico do racismo no futebol e recentes medidas para combatê-lo. Confira!

Formação histórica do racismo no futebol brasileiro: origens da discriminação

Para entender a discriminação racial no futebol atual, precisamos voltar às origens do esporte no Brasil. O futebol chegou ao país como uma prática elitizada, reservada à classe dominante branca, que via no esporte um símbolo de distinção social e racial.

Alguns clubes criaram mecanismos informais de exclusão e essa segregação oficial só começou a se romper quando o talento dos jogadores negros se tornou inegável para o sucesso esportivo. A profissionalização do futebol nos anos 1930 abriu portas, mas não eliminou o preconceito.

Origens sociais e futebol como espaço de exclusão e inclusão

O futebol brasileiro sempre foi um paradoxo racial. Enquanto celebramos a genialidade de Pelé, Garrincha e tantos outros craques negros, os estádios continuaram sendo palco de manifestações racistas.

As torcidas organizadas, surgidas nos anos 1960, reproduziram hierarquias sociais e raciais da sociedade brasileira. Desde gritos de "macaco" até bananas atiradas em campo, passando por cânticos ofensivos e cartazes discriminatórios.

Em 2023, por exemplo, o atleta Vinicius Jr. sofreu insultos durante uma partida na Espanha:

Por outro lado, as instituições esportivas reproduziram por décadas práticas discriminatórias. Dirigentes, comissões técnicas e até mesmo a imprensa esportiva contribuíram para perpetuar estereótipos raciais, criando barreiras invisíveis que limitavam oportunidades para profissionais negros em posições de liderança.

Poder Judiciário no combate ao racismo no futebol

A entrada efetiva do Poder Judiciário na luta contra o racismo no futebol marca uma virada histórica. Os magistrados brasileiros reconheceram que crimes raciais nos estádios não podem ser tratados como meros "excessos da paixão futebolística", mas como violações graves dos Direitos Humanos que exigem resposta legal proporcional.

O Tribunal de Justiça da Bahia se destacou nessa frente, desenvolvendo protocolos específicos de justiça desportiva racismo para julgar casos com maior celeridade.

Essa abordagem reconhece que a demora na punição enfraquece o efeito pedagógico da justiça e pode ser interpretada como tolerância institucional à discriminação. A atuação judicial vai além da punição individual, trabalhando na criação de instrumentos preventivos.

Normativos do CNJ e resolução 490/23

A Resolução CNJ 490/23 instituiu o Fórum Nacional do Poder Judiciário para a Equidade Racial (Fonaer) e representa um marco regulatório na atuação do Judiciário contra crimes raciais.

A normativo estabelece diretrizes específicas para magistrados atuarem em casos de discriminação, incluindo protocolos para identificação, investigação e julgamento desses crimes.

Além disso, a resolução determina que tribunais desenvolvam campanhas educativas e estabeleçam parcerias com entidades da sociedade civil para amplificar o alcance das ações antirracistas. Essa abordagem sistêmica reconhece que a justiça sozinha não transforma mentalidades, mas pode criar condições para que mudanças sociais aconteçam.

👉 Leia também: Dia do combate à discriminação racial: o que é importante saber

Lei 14.532/2023 e leis esportivas contra o racismo

A Lei 14.532/2023 transformou injúria racial em crime de racismo, eliminando uma lacuna legal que permitia punições mais brandas para agressões raciais. No contexto esportivo, essa mudança é fundamental, pois a maioria dos casos nos estádios se enquadrava anteriormente como injúria racial.

Essa lei estabelece penas de dois a cinco anos de reclusão, além de multa, para crimes de racismo. Para o futebol, isso significa que torcedores que cometerem atos racistas enfrentarão consequências penais mais severas, incluindo a possibilidade de prisão em flagrante.

Parcerias entre Ministério Público, defensores públicos e entidades esportivas

A articulação entre diferentes órgãos do sistema de Justiça potencializa o combate ao racismo no futebol. O Ministério Público tem atuado preventivamente, firmando termos de ajustamento de conduta com clubes e federações para estabelecer compromissos concretos de combate à discriminação.

Defensores públicos garantem que vítimas de racismo tenham acesso à justiça independentemente de sua condição socioeconômica. Essa atuação é fundamental, pois muitas vítimas não possuem recursos para contratar advogados particulares ou desconhecem seus direitos.

Desafios atuais e perspectivas para a inclusão racial no futebol

Apesar dos avanços legais e institucionais, o racismo no futebol brasileiro ainda enfrenta obstáculos estruturais que exigem ação coordenada de diferentes setores da sociedade. Os principais desafios incluem:

  • Impunidade histórica que criou uma cultura de tolerância com a discriminação;
  • Falta de educação antirracista entre torcedores que não reconhecem práticas discriminatórias;
  • Baixa representatividade de profissionais negros em posições de liderança no futebol.

Racismo estrutural e violência nos estádios

O racismo nos estádios não é um fenômeno isolado, mas uma expressão da desigualdade racial que marca a sociedade brasileira. Torcedores que cometem atos racistas reproduzem comportamentos que aprenderam em outros espaços sociais.

Jogadores que sofrem ataques racistas enfrentam traumas psicológicos que podem afetar sua carreira e vida pessoal, enquanto a comunidade negra como um todo se sente atacada e excluída.

Políticas de inclusão e mobilizações civis e esportivas

O desenvolvimento de políticas públicas específicas para o combate ao racismo no esporte ganhou impulso com a crescente consciência sobre a dimensão do problema. Programas de formação antirracista para profissionais do futebol começaram a ser implementados em alguns estados.

Além disso, a sociedade civil brasileira tem se mobilizado de forma crescente contra o racismo no futebol, criando movimentos que vão além da denúncia para propor soluções concretas e pressionar por mudanças efetivas nas instituições esportivas.

O Guarani Futebol Clube e a Ponte Preta, por exemplo, aderiram ao Programa Antirracista pela Cor do Esporte, desenvolvido pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas), uma iniciativa com foco em ações antirracistas.

Campanhas antirracistas e mobilização dos atletas

Jogadores brasileiros também têm assumido protagonismo crescente na luta antirracista, usando sua visibilidade para denunciar casos de discriminação e sensibilizar torcedores sobre a gravidade do problema.

Casos de racismo envolvendo jogadores brasileiros em outros países geram repercussão que pressiona por mudanças também no futebol nacional, como o caso de Vinicius Jr, citado anteriormente.

Perspectivas futuras: um futebol verdadeiramente inclusivo

Estamos vivendo um momento único na luta contra o racismo no futebol brasileiro. As ferramentas jurídicas existem, a consciência social cresce e as instituições começam a assumir responsabilidades. O desafio agora é transformar essa confluência de fatores em mudanças concretas e duradouras.

Um futebol verdadeiramente inclusivo é aquele onde a diversidade racial é celebrada como fonte de riqueza, onde todos os brasileiros podem torcer, jogar e liderar sem medo da discriminação, e onde o talento e o caráter importam mais que a cor da pele.

A articulação entre Poder Judiciário, sociedade civil e entidades esportivas pode produzir resultados efetivos. E para que os estádios brasileiros se tornem verdadeiramente inclusivos, precisamos reconhecer que o racismo no futebol é apenas uma face do racismo estrutural que marca nossa sociedade.

Assim, a luta antirracista no esporte deve estar conectada com políticas mais amplas de promoção da igualdade racial.

Como abordar o racismo no futebol na redação: repertórios e dicas

A questão racial aparece de diversas formas no Enem e em outros vestibulares. Embora não esteja entre os temas mais recorrentes, é frequentemente cobrada como contexto ou por meio da abordagem de movimentos sociais.

Abordar o racismo no futebol de forma estratégica na redação do Enem exige clareza conceitual, repertório sociocultural e proposta de intervenção viável. Veja de que forma fazer isso:

  • apresente o futebol como um fenômeno social e cultural de grande relevância no Brasil e no mundo, destacando que o esporte ainda reproduz práticas racistas presentes na sociedade;
  • explique como o racismo se manifesta no futebol, citando exemplos de ofensas verbais a jogadores, atitudes de torcedores, omissão de dirigentes ou punições brandas;
  • aponte fatores como o racismo estrutural, a normalização de estereótipos, a impunidade e a falta de educação antirracista, mostrando que o problema vai além dos estádios;
  • analise os impactos do racismo na vida dos atletas (abalos psicológicos, desvalorização profissional) e na sociedade, reforçando a perpetuação da discriminação e a contradição com os valores de igualdade e cidadania previstos na Constituição;
  • apresente soluções viáveis e detalhadas, envolvendo entidades esportivas, clubes, escolas e o poder público, como campanhas educativas, punições mais rigorosas, programas de formação antirracista e incentivo à denúncia, respeitando os direitos humanos.

👉 Leia também: Competência 5 da redação do Enem: proposta de intervenção

AprovaDocs: webdocumentários do Aprova Total

Os alunos do Aprova Total têm acesso a webdocumentários sobre questões sociais, políticas e culturais até discussões sobre a natureza e o universo.

O objetivo é compartilhar conhecimento sobre assuntos relevantes para as provas do vestibular, em especial, a de redação. No canal do Aprova no YouTube, é possível assistir gratuitamente a alguns episódios. Os temas são Consequências do Uso Excessivo de Plástico e Arquitetura Hostil.

Para conferir os outros webdocumentários, assine a plataforma e garanta ainda todo o apoio para conquistar sua tão sonhada vaga no vestibular. Esperamos você!

AprovaDocs: racismo no futebol

Convidamos você a assistir ao EP#52 do AprovaDocs, que aborda a importância da reparação histórica, uma luta contínua pela justiça e dignidade humana, que deve estar presente em todos os setores da sociedade.

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Érica Travain

Jornalista com 10 anos de experiência na redação de textos para revistas, sites e blogs sobre educação, saúde, comportamento e tecnologia. Colaborou no blog do Aprova Total.

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