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Nicolau Maquiavel e o pensamento filosófico moderno

As ideias de Maquiavel se desenvolveram durante o Renascimento, principalmente a partir do livro O Príncipe (1532); conheça a vida e a obra deste pensador

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Nicolau Maquiavel, um dos nomes mais influentes e controversos da filosofia política, é uma figura que provoca debates intensos sobre moralidade e governança. Nascido na cidade italiana Florença, em 1469, sua vida e obra são sinônimos de uma abordagem realista e pragmática do poder associado à clássica frase “os fins justificam os meios”. 

As ideias de Maquiavel se desenvolveram durante o Renascimento e marcaram o início do pensamento filosófico moderno, que desafiou as convenções de sua época. Conhecido pela obra O Príncipe (1532), ele explorou a complexidade da liderança e as estratégias necessárias para manter a estabilidade e o controle político. 

Neste texto, mergulharemos na vida, nas principais obras e nas ideias de Maquiavel, desvendando seu legado duradouro que ainda ressoa na política contemporânea.

Quem foi Nicolau Maquiavel: biografia 

Nicolau Maquiavel (Niccolò Machiavelli) nasceu em uma tradicional família italiana de classe média baixa. O pai, Bernardo di Niccolò Machiavelli, era advogado e influenciou consideravelmente sua educação e seus interesses desde criança.

Durante sua trajetória, Maquiavel se tornou um dos mais importantes nomes da filosofia política, sendo reconhecido ainda como poeta, historiador e músico.

Em 1498, entrou para o serviço público, atuando na diplomacia e na administração militar. Durante sua carreira, participou de várias missões diplomáticas em países como França, Alemanha e Roma, experiências que resultaram em uma visão profunda da política europeia.

Viveu e produziu durante o período histórico que chamamos de Renascimento, época marcada pelo fim do pensamento medieval e por uma renovação cultural a partir da valorização do homem e da ciência. Ele também é considerado precursor da escola realista na política e nas relações internacionais. 

Maquiavel casou-se com Marietta Corsini em 1502, com quem teve vários filhos. Sua morte foi registrada em 21 de junho de 1527, em Florença.

Quais ideias Maquiavel defendia? 

As principais contribuições do autor se dão no terreno da política, mas, para se aprofundar no assunto, a filosofia de Maquiavel recorreu a outras áreas, como nas reflexões sobre o poder e a moral. Segundo o pensador, estes dois são campos autônomos, sem nenhuma dependência. 

A moral, nesse caso, é entendida não como regra, mas como algo flexível que compreendemos partir das necessidades de um governante. Assim, podemos dizer que a moralidade daquele que detém o poder político é adaptável. 

Nesse sentido, para Maquiavel, o príncipe não deveria agir guiado pela moral. Ou seja, ele deve ser livre para agir com bondade, quando necessário, mas rígido, se for preciso. Esta perspectiva desafiou as visões morais e religiosas predominantes da época, que defendiam a liderança virtuosa e ética.

♟️“O governante deve escolher ser temido, em detrimento de ser amado, se tiver que fazer a opção entre ambos” (O Príncipe, 1532).

Ele também introduziu o conceito de virtù, que representa a capacidade de um líder de moldar seu próprio destino através de habilidades, sagacidade e coragem. Segundo Maquiavel, um líder de sucesso é aquele que pode adaptar suas ações às circunstâncias em constante mudança, uma ideia que ainda ressoa na política contemporânea.

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Quais foram as ideias de Maquiavel sobre a política? 

O pensamento político de Nicolau Maquiavel é conhecido principalmente pela análise da postura necessária para um governante, ao descrever como esse indivíduo deve agir para manter a estabilidade de um no governo.

Ele defende a necessidade do príncipe priorizar a manutenção do poder, para ter força e controle da população, visando o bem dela. Portanto, a política deve ser estruturada a fim de manter a ordem.

O filósofo desenvolveu os conceitos de virtú e fortuna justamente para identificar como e onde elas podem ser representadas. Sendo assim,

  • fortuna diz respeito aos acontecimentos do tempo e elementos externos, ou seja, eventos aleatórios que determinam e alteram a sociedade;
  • e a virtú é a capacidade de compreender e agir sobre essas mudanças no ambiente, a partir da própria racionalidade do indivíduo, que se adapta para compreendê-las, em vez de se sujeitar a elas.

A partir disso, Maquiavel é frequentemente associado à ideia de que "os fins justificam os meios". Essa interpretação sugere que um líder deve fazer o que for necessário para alcançar seus objetivos, mesmo que isso envolva ações moralmente questionáveis.

Com isso, acredita que a estabilidade e a segurança do Estado são mais importantes do que a moralidade individual do governante, pois, na política, a moral não é única, ela se estabelece a partir de um contexto.

Além disso, o pensador destaca a importância da aparência e da percepção na política. Isso significa que um líder eficaz deve ser capaz de manipular a imagem que projeta para súditos e rivais, seja a partir da força ou da inteligência, para manter o controle.

Essa visão pragmática (e muitas vezes cínica) marcou uma ruptura significativa com as tradições anteriores de filosofia política.

Qual foi o grande legado de Maquiavel? 

As ideias de Nicolau Maquiavel moldaram o pensamento político moderno, influenciando líderes e teóricos ao longo dos séculos. Embora muitas vezes seja associado ao cinismo e à manipulação, seu trabalho também oferece uma análise realista e prática da natureza humana e do poder.

Suas produções para a filosofia política marcaram a entrada da modernidade, e contribuíram de forma pioneira nos debates acerca dos modelos de governo e da postura dos governantes. 

O autor ainda fez um grande trabalho analisando a história política do passado. Ele compreendeu o que há de comum nas ações humanas ao longo do tempo, para afirmar que as pessoas agem movidas pelo próprio interesse e de acordo com a própria conveniência.

Maquiavel continua a ser uma figura estudada e debatida em cursos de Ciência Política e Filosofia ao redor do mundo. Portanto, seu legado é uma reflexão poderosa sobre a complexidade da liderança e a eterna tensão entre moralidade e governança.

(Estátua de Maquiavel em Florença, Itália. Imagem: Reprodução Wikimedia Commons/ JoJan, CC BY 3.0)

O Príncipe: a obra mais famosa de Maquiavel 

A obra mais famosa de Nicolau Maquiavel é também uma das mais influentes na história da filosofia política. Escrito em 1513, durante um período de exílio político, O Príncipe foi publicado após sua morte, em 1532.

É neste que livro que consta o registro da maior parte de sua filosofia política, como as ideias sobre moral e a postura dos governantes.

No texto, Maquiavel oferece conselhos a um governante hipotético, conhecido como "o príncipe", sobre como manter e consolidar o poder. Descreve ainda que o objetivo do príncipe deve ser assegurar a própria glória e o sucesso do Estado, já que é o responsável pelo povo, e suas ações e escolhas consideram a manutenção desse controle. 

Assim, a preocupação do príncipe com questões morais não tem o mesmo peso, visto que ele age em busca de um bem que se relaciona a esses objetivos (“os fins justificam os meios”, lembra?).

👔 Para demonstrar sua tese, Maquiavel analisa fatos históricos sobre monarcas que tiveram sucesso ou que fracassaram. Então, apresenta uma espécie de manual para governantes que desejam manter ou ampliar seu poder.

Curiosidade: origens do termo maquiavélico

O termo "maquiavélico", muitas vezes, carrega uma conotação negativa, como referência a manipulação e falta de escrúpulos. Com isso, o maquiavelismo é usado para descrever ações maldosas ou falsas. Mas será que essa ideia vem do nome de Nicolau Maquiavel?

A resposta é sim! A partir da associação entre o autor e seus pensamentos, e do teor negativo sobre a interpretação de sua obra, maquiavélico se tornou sinônimo de algo ruim. Retoma-se o pensamento de que as ações não importam, se elas forem necessárias para atingir certos objetivos.

Desse modo, uma pessoa maquiavélica teria uma personalidade interessada em suas próprias conquistas, mesmo que possa prejudicar alguém ou colocar em xeque o valor moral de sua ação. 

No entanto, é importante destacar que essa interpretação simplista não abrange toda a complexidade do pensamento de Maquiavel. O autor defendia uma política pragmática e realista, em vez de mera maldade ou engano.

Aliás, Maquiavel acreditava que nem todos os meios são justificáveis! Por exemplo: em sua obra, ele pontua que o príncipe deveria evitar atitudes que o fizessem ser odiado, já que o povo poderia se revoltar contra o governo.

Na realidade, o pensador acredita que a moralidade não tem que estar presente nessas ações, mas não de forma negativa, e sim buscando uma neutralidade política estruturada, que segue regras.

Resumo: Nicolau Maquiavel 

Confira um resumo sobre as principais discussões abordadas no texto:

  • Nasceu em Florença, na Itália, em 1469, e se tornou um dos principais filósofos políticos do Renascimento;
  • Apresenta a ideia de separação entre poder e moral, ao argumentar que a moralidade deve ser flexível e adaptada às necessidades do governante;
  • Maquiavel introduziu o conceito de virtù, que representa a capacidade de um líder moldar seu destino a partir de habilidades como sagacidade e coragem; e fortuna, que trata dos eventos aleatórios e externos que afetam a sociedade;
  • Os fins justificam os meios: embora a frase não seja literalmente do filósofo, reflete a ideia de que um governante deve fazer o que for necessário para alcançar seus objetivos;
  • O Príncipe (1532) é a obra mais famosa de Maquiavel e foi publicada postumamente;
  • No livro, ele oferece conselhos a governantes sobre como manter e consolidar o poder, descrevendo que o objetivo principal deve ser a estabilidade e a segurança do Estado;
  • É uma figura influente e debatida na Filosofia e Ciência Política;
  • Suas ideias moldaram o pensamento político moderno, oferecendo uma análise pragmática da natureza humana e do poder.
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Como a filosofia de Maquiavel cai no Enem e nos vestibulares?

Geralmente, as ideias de Maquiavel aparecem nas provas de Filosofia a partir das análises de trechos que expressam visões do autor, por isso, é importante compreender como ele enxerga a política.

Relações entre sua visão acerca da postura necessária e ideal de um governante e os pensamentos de outros pensadores também podem cair nas provas.

Os estudantes devem estar preparados ainda para discutir:

  • a separação entre moral e política;
  • a importância da virtù e da fortuna;
  • o impacto de suas ideias na política moderna;
  • aspectos da liderança e das dinâmicas de poder.

Exemplo 1

(Enem 2019)  Para Maquiavel, quando um homem decide dizer a verdade pondo em risco a própria integridade física, tal resolução diz respeito apenas a sua pessoa. Mas se esse mesmo homem é um chefe de Estado, os critérios pessoais não são mais adequados para decidir sobre ações cujas consequências se tornam tão amplas, já que o prejuízo não será apenas individual, mas coletivo. Nesse caso, conforme as circunstâncias e os fins a serem atingidos, pode-se decidir que o melhor para o bem comum seja mentir.

ARANHA, M. L. Maquiavel: a lógica da força. São Paulo: Moderna, 2006 (adaptado).

O texto aponta uma inovação na teoria política na época moderna expressa na distinção entre

a) idealidade e efetividade da moral.    

b) nulidade e preservabilidade da liberdade.    

c) ilegalidade e legitimidade do governante.    

d) verificabilidade e possibilidade da verdade.    

e) objetividade e subjetividade do conhecimento   

Resposta: [A]
Nicolau Maquiavel foi inovador ao separar a moral religiosa das suas reflexões políticas. Assim, ele inaugura uma nova concepção ética baseada nas relações políticas concretas entre os homens, e não em ideais e valores abstratos. No texto, o autor aborda o peso diferente da moral para o governante, que tem como objetivo manter a estabilidade e o bem comum, e sua necessidade de tomar decisões "sem um valor", mas para alcançar esse fim. Há, então, uma distância entre o ideal de moralidade e a efetividade daquilo que o governante deve fazer pensando no povo. 

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Isabela Flor da Rosa

Analista Pedagógico de Sociologia e Filosofia no Aprova Total. Graduanda pela UFSC.

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