Ciências da Natureza Física

Segunda lei da termodinâmica: conceitos, fórmulas e como cai no Enem

Kelvin-Planck, Clausius, rendimento, ciclo de Carnot e entropia: veja tudo com fórmulas e questões comentadas

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A segunda lei da termodinâmica estabelece os limites das transformações de calor em trabalho. Ela diz que nenhuma máquina térmica converte todo o calor recebido em trabalho útil (enunciado de Kelvin-Planck) e que o calor não flui espontaneamente de um corpo frio para um mais quente (enunciado de Clausius). Uma terceira forma de enunciá-la usa a entropia, que sempre tende a aumentar num sistema isolado.

Essa é uma das bases da termodinâmica, a área da Física que estuda as relações entre energia térmica e energia mecânica. Pela primeira lei da termodinâmica, já sabemos que o calor pode ser transformado em trabalho e vice-versa. Mas será que existe algum limite para esse processo? É exatamente essa pergunta que a segunda lei responde. Ela pode ser expressa de várias formas equivalentes, e neste guia a gente vai entender cada uma, com as fórmulas e exemplos resolvidos.

Máquinas térmicas e a segunda lei da termodinâmica

Chamamos de máquina térmica qualquer dispositivo capaz de converter calor em trabalho útil. Em geral, elas operam em ciclos, os chamados ciclos termodinâmicos. Alguns exemplos comuns são as máquinas a vapor, os motores de automóveis e até os reatores nucleares.

Pense num motor de automóvel. No interior dele, ocorre a combustão de um combustível, uma reação muito exotérmica, que libera bastante calor. A função do motor é converter esse calor em trabalho útil, aquele que gera a tração nas rodas e movimenta o carro. Mas será que todo o calor da combustão vira trabalho? A resposta é não, e o motivo está na segunda lei.

O primeiro enunciado que vamos estudar é o de Kelvin-Planck: "É impossível construir uma máquina que, operando em ciclos, tenha como único efeito converter integralmente em trabalho todo o calor recebido".

Em outras palavras, nenhuma máquina térmica transforma em trabalho todo o calor que recebe. Sempre sobra uma parte, o calor rejeitado, que sai da máquina sem virar trabalho.

Conservação da energia em máquinas térmicas

Pelo princípio da conservação da energia, podemos relacionar o calor recebido da fonte quente (Q₁), o calor rejeitado para a fonte fria (Q₂) e o trabalho útil (τ) de uma máquina térmica:

\( \tau = |Q_1| - |Q_2| \)

Ou seja, o trabalho útil é igual ao calor recebido menos o calor rejeitado. A fonte quente é a região que fornece calor à máquina, e a fonte fria é para onde o calor é rejeitado. Em toda máquina térmica, a temperatura da fonte quente (T₁) é maior que a da fonte fria (T₂).

máquina térmica - segunda lei termodinãmica
Fonte: Esquema desenvolvido pelo Aprova Total para mostrar o funcionamento de uma máquina térmica

Rendimento das máquinas térmicas

Para medir a eficiência de uma máquina térmica, usamos o rendimento (η), que indica quanto do calor recebido é transformado em trabalho útil. Ele varia entre 0 e 1: seria 1 para uma máquina que converte 100% do calor em trabalho, e 0 para uma incapaz de gerar trabalho. Como nenhuma máquina converte todo o calor em trabalho, nenhuma tem rendimento igual a 1.

O rendimento é a razão entre o trabalho útil e o calor recebido da fonte quente:

\( \eta = \frac{\tau}{|Q_1|} \)

Substituindo o trabalho pela expressão anterior, chegamos a uma segunda fórmula, muito útil na prova:

\( \eta = 1 - \frac{|Q_2|}{|Q_1|} \)

Ciclo de Carnot

Na prática, o rendimento depende de vários fatores, como a tecnologia da máquina, o fluido operante e, principalmente, as temperaturas das fontes. Em 1824, o engenheiro francês Nicolas Léonard Sadi Carnot (1796-1832) propôs uma máquina térmica teórica ideal, com o maior rendimento possível para duas temperaturas dadas.

Para isso, essa máquina segue um ciclo específico, o ciclo de Carnot, composto, para um gás ideal, por duas transformações isotérmicas e duas transformações adiabáticas. Nesse ciclo, os calores trocados com as fontes são proporcionais às temperaturas absolutas (em kelvin) dessas fontes:

\( \frac{|Q_2|}{|Q_1|} = \frac{T_2}{T_1} \)

Com isso, o rendimento de uma máquina de Carnot depende apenas das temperaturas das fontes:

\( \eta_{Carnot} = 1 - \frac{T_2}{T_1} \)

Atenção: as temperaturas devem estar em kelvin. Esse é o rendimento máximo possível, pois, pelo primeiro postulado de Carnot, "nenhuma máquina operando entre duas temperaturas fixas pode ter rendimento maior do que uma máquina ideal de Carnot que opera entre essas mesmas temperaturas".

Note que esse rendimento máximo nunca chega a 1, porque isso exigiria uma fonte fria a 0 K, o zero absoluto, que é inatingível. O segundo postulado de Carnot complementa: operando entre as mesmas temperaturas, o rendimento de uma máquina de Carnot é o mesmo, independentemente do fluido operante.

Imagem ilustrando o ciclo de Carnot através de um gráfico de pressão por volume, mostrando duas transformações isotérmicas e duas transformações adiabáticas, intercaladas entre si.
Fonte: Gráfico desenvolvido pelo Aprova Total que mostra transformações isotérmicas e adiabáticas

Refrigeradores e a segunda lei da termodinâmica

Vamos agora a um segundo enunciado da segunda lei, o de Clausius: "é impossível que uma máquina, sem a ajuda de um agente externo, consiga conduzir calor de um sistema para outro que esteja a uma temperatura maior". Isso formaliza algo do cotidiano: o calor nunca flui espontaneamente para um corpo mais quente. Uma xícara de café quente sobre a mesa sempre perde calor para o ambiente, e nunca o contrário.

Mas então como funcionam a geladeira e o ar-condicionado? Um ar-condicionado remove calor de dentro do cômodo (mais frio) e o libera fora (mais quente). Isso não viola a segunda lei porque o processo não é espontâneo, e sim forçado.

Chamamos de refrigerador a máquina capaz de transferir calor de uma região mais fria para uma mais quente, e para forçar essa transferência ela precisa realizar trabalho. Por isso geladeiras e ar-condicionados são ligados à tomada: usam energia elétrica para realizar esse trabalho.

Conservação da energia em refrigeradores

De forma análoga às máquinas térmicas, aplicamos a conservação de energia ao refrigerador. Aqui, Q₁ é o calor retirado da fonte fria e Q₂ é o calor rejeitado na fonte quente:

\( |Q_2| = |Q_1| + \tau \)

Ou seja, o calor rejeitado na fonte quente é a soma do calor retirado da fonte fria com o trabalho realizado, e por isso Q₂ é sempre maior que Q₁. É por isso, aliás, que deixar a porta da geladeira aberta esquenta a cozinha: o equipamento joga na parte de trás (fonte quente) mais calor do que remove na frente (fonte fria).

Diagrama representando o fluxo do calor e do trabalho para um refrigerador.
Fonte: Diagrama desenvolvido pelo Aprova Total representando o fluxo do calor e do trabalho para um refrigerador

Eficiência dos refrigeradores

No lugar do rendimento, os refrigeradores têm a eficiência (ε). Quanto maior a eficiência, menos trabalho o refrigerador precisa realizar para remover uma dada quantidade de calor da fonte fria. Ela é a razão entre o calor retirado da fonte fria e o trabalho realizado:

\( \varepsilon = \frac{|Q_1|}{\tau} \)

Substituindo o trabalho por τ = |Q₂| − |Q₁|, chegamos a uma segunda fórmula para a eficiência:

\( \varepsilon = \frac{|Q_1|}{|Q_2| - |Q_1|} \)

Entropia e a segunda lei da termodinâmica

Por fim, uma terceira forma de enunciar a segunda lei usa a entropia. A entropia (S) é a medida da "desordem" de um sistema: quanto maior a desordem, maior a entropia. A Física nos diz que, com o tempo, a desordem de um sistema isolado tende sempre a aumentar, nunca a diminuir. Logo, a entropia de um sistema isolado sempre aumenta, e podemos concluir que a entropia do universo vem crescendo ao longo do tempo. Se quiser se aprofundar, temos um post completo sobre entropia.

E qual a relação disso com o resto? Como nenhuma máquina transforma em trabalho todo o calor recebido, parte dessa energia não é aproveitável. A entropia mede justamente essa parcela de energia que não pode ser convertida em trabalho. Na prática, o que interessa não é o valor absoluto da entropia, mas a sua variação (ΔS) ao longo de um processo, calculada pela razão entre o calor trocado (Q) e a temperatura absoluta (T), em kelvin:

\( \Delta S = \frac{Q}{T} \)

Como a segunda lei da termodinâmica cai no Enem e como estudar

Termologia é uma das áreas mais presentes na Física do Enem e dos vestibulares, e a segunda lei da termodinâmica, com as máquinas térmicas, já caiu, apesar de não ser um dos assuntos mais cobrados.

Na prova, o tema costuma ser cobrado de duas formas: o cálculo do rendimento de uma máquina, com destaque para o rendimento máximo de Carnot a partir das temperaturas, e a interpretação conceitual das impossibilidades da segunda lei, como a máquina de rendimento total. A pegadinha mais comum é esquecer de converter as temperaturas para kelvin no cálculo de Carnot.

Para estudar bem, treine os dois tipos e conecte o tema aos demais assuntos de Física no Enem, revisando também as fórmulas de Física mais importantes.

Veja dois exemplos no estilo da prova:

Questão 1

Uma máquina térmica ideal opera segundo o ciclo de Carnot, entre uma fonte quente a 400 K e uma fonte fria a 300 K. O rendimento máximo dessa máquina é de aproximadamente:

a) 100%
b) 75%
c) 25%
d) 43%
e) 0%

Resposta: [C]
Para o ciclo de Carnot, o rendimento é \( \eta = 1 - \frac{T_2}{T_1} \), com as temperaturas em kelvin. Substituindo, \( \eta = 1 - 300/400 = 1 - 0,75 = 0,25 \), ou seja, 25%. A resposta correta é a letra c. As demais ignoram a fórmula ou esquecem a razão entre as temperaturas.

Questão 2

Um inventor afirma ter criado uma máquina térmica que, operando em ciclos, converte integralmente em trabalho todo o calor recebido, sem rejeitar calor para uma fonte fria. Sobre essa afirmação, é correto dizer que:

a) é possível, desde que a máquina seja muito eficiente.
b) é impossível, pois viola o enunciado de Kelvin-Planck da segunda lei da termodinâmica.
c) é possível apenas em uma máquina de Carnot.
d) é impossível, pois viola a primeira lei da termodinâmica.
e) é possível se a fonte fria estiver a 0 K.

Resposta: [B]
O enunciado de Kelvin-Planck afirma que nenhuma máquina operando em ciclos converte todo o calor recebido em trabalho, sempre rejeitando parte dele. A máquina descrita viola exatamente esse princípio, o que corresponde à letra b. A primeira lei trata da conservação da energia, e não desse limite, o que elimina a letra d.

Perguntas frequentes

Qual a diferença entre a primeira e a segunda lei da termodinâmica?
A primeira lei trata da conservação da energia (calor e trabalho se transformam um no outro). A segunda estabelece os limites e o sentido dessas transformações.

O que é o rendimento de uma máquina térmica?
É a fração do calor recebido que a máquina converte em trabalho útil, dada por η = 1 − |Q₂|/|Q₁|. Ele é sempre menor que 1.

Por que a máquina de Carnot tem o rendimento máximo?
Porque ela é uma máquina ideal, e nenhuma máquina real operando entre as mesmas temperaturas pode superá-la. Seu rendimento depende só das temperaturas das fontes.

O que é entropia?
É a medida da desordem de um sistema. Num sistema isolado, a entropia sempre tende a aumentar, o que dá o sentido dos processos naturais.

Estudando a segunda lei da termodinâmica

A segunda lei da termodinâmica mostra que a energia tem qualidade, não só quantidade: nem todo calor vira trabalho, e os processos têm um sentido natural. Dominar os enunciados de Kelvin-Planck e Clausius, as fórmulas de rendimento e de eficiência, o ciclo de Carnot e a ideia de entropia é o que resolve as questões do tema.

O próximo passo é praticar, resolvendo exercícios de cálculo de rendimento e interpretando os enunciados. Para estudar Física com um plano organizado e questões comentadas, conheça a preparação do Aprova Total.

Colaborou neste artigo Nicolas Castro Macuco, analista pedagógico no Aprova Total. Licenciado em Física pela UFSC, trabalha com a disciplina para Enem e vestibulares desde 2018.

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Denis Fin

Bacharel em Física pela UFSC, colaborou com o Aprova Total.

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