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Mudanças no Enem 2028: Inep detalha a maior reformulação da prova desde 2009

Alguns pontos já têm direção definida, outros ainda podem mudar até a versão final dos documentos; confira a análise de Priscila Naves, gerente pedagógica do Aprova Total

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As mudanças previstas para o Enem 2028 incluem uma nova matriz de referência alinhada à BNCC, menos habilidades por área, possível redução de 180 para 160 questões, uma redação em novo formato e recursos como testlets e questões abertas. A maior parte ainda é proposta apresentada pelo Inep e pode mudar até 2028.

Representando o Aprova Total, participei em 16 de setembro de 2026 de uma reunião técnica do Inep que reuniu apenas 130 educadores para apresentar, em primeira mão, a proposta da nova Matriz de Referência do Enem 2028. Na prática, o que foi colocado sobre a mesa é a maior reformulação da prova desde a criação da matriz atual, em 2009: mudam a matriz, o formato das questões, a redação e a própria lógica de avaliação.

Escrevo esta análise a partir das anotações que fiz no encontro. Antes de detalhar cada ponto, um alerta que vale para todo o texto: boa parte do que foi apresentado é proposta em estudo. Alguns pontos já têm direção definida, outros ainda podem mudar até a versão final dos documentos, e o próprio Inep reforçou isso durante a reunião.

Por que essas mudanças para o Enem 2028 importam agora

O Enem é a principal porta de entrada para o Ensino Superior no país e organiza a rotina de estudo de milhões de estudantes. Qualquer alteração na prova reverbera em escolas, cursinhos e famílias. Por isso, entender o que está sendo desenhado para 2028, e o que ainda é incerto, ajuda a planejar os próximos anos sem pânico e sem desinformação.

A mudança não acontece de uma vez. Segundo a apresentação do Inep, a transição é feita em etapas. Em 2026 e 2027, permanece vigente a matriz de referência atual, e a única novidade do período é a introdução do testlet, formato que já apareceu na edição de 2025. É a partir de 2028 que entram a nova matriz alinhada à BNCC, os novos formatos de itens, a previsão de um novo formato de redação e a incorporação dos itinerários formativos, e que vamos abordar a seguir.

Nova matriz alinhada à BNCC terá menos habilidades por área

O centro da reformulação é a Matriz de Referência, documento que define o que a prova avalia. A proposta prevê alinhá-la à BNCC e reorganizar as competências e habilidades. Hoje, cada área do conhecimento tem 30 habilidades; na proposta para 2028, esse número cai para 20 por área.

O número menor, no entanto, não significa prova mais fácil. De acordo com o que foi apresentado, o que muda é a forma de construir e avaliar cada habilidade. Cada uma passa a combinar três elementos: processo cognitivo, mais objeto do conhecimento, mais contexto, formando o que o Inep chamou de tarefa cognitiva. Ou seja, não basta saber o conteúdo: a questão define o que o estudante precisa fazer com aquele conhecimento e em qual situação.

Dois exemplos apresentados na reunião ilustram a lógica. Em um deles, o processo cognitivo é "identificar", o objeto são "elementos da cultura material ou imaterial constitutivos das identidades" e o contexto é "em diferentes sociedades". Em outro, o processo é "avaliar", o objeto são "dilemas ético-políticos" e o contexto é "em diferentes contextos espaço-temporais". Os processos cognitivos podem envolver ações como identificar e lembrar, compreender, analisar e avaliar.

Outra marca da proposta é o peso do contexto. As habilidades poderão trabalhar situações em escalas diferentes, da local à global, e em diferentes períodos históricos, com destaque para temas como problemas socioambientais, transformações tecnológicas e mundo do trabalho. A matriz também reforça a transversalidade: um mesmo tema poderá ser cobrado em áreas diferentes. Uma premissa resumiu essa intenção na reunião, a de "chão baixo, teto alto", com tarefas acessíveis para medir conhecimentos básicos e questões capazes de desafiar os estudantes mais avançados.

A prova pode encolher de 180 para 160 questões

Um dos pontos que mais chamaram atenção foi o tamanho da prova. A proposta preliminar prevê 20 habilidades em cada uma das quatro áreas, num total de 80 habilidades, com a intenção inicial de trabalhar dois itens por habilidade.

Mantida essa lógica, a conta chega a 160 questões objetivas, ante as 180 atuais, uma redução de 20 questões. A proposta, segundo o Inep, é ter uma matriz mais enxuta e, ao mesmo tempo, avaliar de forma mais estruturada diferentes níveis de domínio. Vale o registro: trata-se de intenção inicial, ainda não de número fechado.

Redação em estudo pode ter quatro textos e 50 linhas

A redação concentra a mudança de maior impacto potencial e, ao mesmo tempo, uma das mais abertas. 

A estrutura em estudo, porém, já aponta uma virada. A produção escrita poderá envolver quatro textos, somando 50 linhas: uma produção vinculada a Linguagens, de cerca de 20 linhas, e três produções adicionais, de aproximadamente 10 linhas cada, ligadas às demais áreas do conhecimento. Também está prevista maior diversidade textual, com o uso de até quatro gêneros distintos, o que representa uma mudança substancial diante do modelo atual, centrado em uma única redação dissertativo-argumentativa. Quem quiser entender o que vale hoje pode revisar as cinco competências avaliadas na redação do Enem.

Sobre certificação, foi mencionada a nota 500 na redação como referência mínima para a certificação do Ensino Médio, e 450 nas demais áreas, para quem realiza o exame com esse objetivo. Esse conjunto também está entre os pontos em estudo.

Testlets e a possibilidade de questões abertas

Entre as inovações de formato, o Inep destacou os testlets, já usados em 2025. A ideia é que um mesmo texto ou contexto dê origem a diferentes questões, em vez de cada item exigir um novo texto-base. O objetivo citado é reduzir a exaustão provocada pelo excesso de leituras independentes ao longo da prova e permitir o uso de textos mais íntegros, com menos recortes e adaptações.

A nova estrutura também abre espaço para questões abertas, além dos itens objetivos. Aqui, a precisão importa: pelo que foi apresentado, trata-se de uma possibilidade aberta pela nova estrutura, e não da confirmação de que a prova terá um número definido de questões discursivas. Se confirmada, a mudança afetaria simulados, bancos de questões, estratégias de resolução, correção e a formação dos professores.

Itinerários formativos entram na avaliação

A matriz de 2028 deverá incorporar a lógica dos novos itinerários formativos do Ensino Médio. Uma das possibilidades apresentadas é organizar partes da prova em seções ligadas às áreas eletivas ou às áreas do conhecimento, trabalhando os itinerários de forma transversal.

Há aí uma mudança de finalidade. O Enem atual avalia essencialmente o percurso de formação já cumprido pelo estudante. O novo modelo deverá incorporar também uma dimensão ligada ao percurso que ele pretende seguir na graduação, com avaliação orientada à área escolhida. Um ponto foi ressaltado como especialmente importante para a comunicação com os alunos: a escolha da área não deverá impedir o estudante de concorrer, depois, a cursos de outras áreas.

Enem migra para a lógica do Saeb e ganha padrões de desempenho

Para além da prova, foi apresentada uma mudança estrutural: o Enem deverá ser incorporado à lógica do Saeb, dentro de uma estrutura chamada Exame Nacional da Educação Básica. A principal diferença está na unidade de avaliação. Enquanto o Saeb hoje se volta sobretudo a resultados agregados de grupos e instituições, a nova estrutura passa a incluir também uma dimensão de avaliação individual do estudante. Outro ponto é a ampliação da avaliação para as escolas privadas, e não apenas para a rede pública.

Dentro dessa lógica, uma novidade relevante é a criação de padrões de desempenho associados à pontuação. A tabela apresentada pelo Inep para o Ensino Médio estabelece quatro níveis. Registro os valores como foram apresentados, com a ressalva de que são proposta e ainda podem mudar:

  • Linguagens, Ciências da Natureza e Ciências Humanas:
    • Abaixo do Básico até 449; Básico de 450 a 549;
    • Adequado de 550 a 649;
    • Avançado a partir de 650.
  • Matemática:
    • Abaixo do Básico até 449;
    • Básico de 450 a 599; Adequado de 600 a 699;
    • Avançado a partir de 700.

As faixas de Matemática aparecem diferentes das demais áreas, e isso foi questionado na própria reunião: participantes pediram a revisão dos cortes de Matemática e Ciências da Natureza, considerando que as escalas da TRI dessas áreas podem ter comportamentos e valores máximos distintos.

Segundo minhas anotações, o diretor de Avaliação da Educação Básica, Eduardo Sousa, informou que os participantes terão acesso aos documentos da matriz e dos padrões de desempenho, que ainda poderão ser avaliados e alterados. Há ainda uma mudança nos microdados, que passarão a trazer o padrão de desempenho de cada participante, permitindo relacionar a nota à faixa correspondente.

Mudanças para o Enem 2028: o que ainda não está definido

Numa cobertura honesta, é tão importante dizer o que muda quanto o que ainda não está decidido. Pelo que foi apresentado na reunião, seguem em aberto:

  • a posição da redação na prova (separada ou integrada a Linguagens) e seu formato final;
  • o número exato de questões, incluindo se haverá e quantas serão as questões abertas;
  • e os cortes dos padrões de desempenho, especialmente em Matemática e Ciências da Natureza.

Por isso, internamente, não tratamos esses números como configuração definitiva do Enem 2028 neste momento.

O que muda para o estudante

Apesar das incertezas, a direção geral é clara: o Enem 2028 tende a valorizar cada vez mais saber pensar com o conteúdo, e não apenas lembrar informações. A pergunta deixa de ser só "o que cai na prova?" e passa a incluir "o que o Enem espera que eu saiba fazer com isso?".

Na rotina de estudos, isso reforça o treino de interpretação e de resolução de problemas, o contato com fontes variadas e a prática de escrita em diferentes gêneros. Continua valendo estudar de olho nos assuntos mais cobrados no Enem e, para quem começa agora, seguir um passo a passo de como estudar para o Enem do zero. Vale lembrar que quem faz a prova em 2026 e 2027 segue na matriz atual e tem tempo para se adaptar com calma.

Mudanças no Enem 2028: Priscila Naves, gerente pedagógica na reunião do Inep
Representei o Aprova Total na reunião técnica do Inep, em que conhecemos a proposta da nova Matriz de Referência do Enem 2028 (Fonte: Arquivo Pessoal)

Perguntas frequentes sobre mudanças no Enem 2028

As mudanças do Enem 2028 já estão confirmadas?
Não. A maior parte é proposta em estudo, incluindo a nova matriz, os padrões de desempenho e o formato da redação. O Inep informou que os documentos ainda podem ser avaliados e alterados.

Quem vai fazer o Enem em 2026 ou 2027 é afetado?
Não pela nova matriz. Em 2026 e 2027 permanece a matriz atual, com o testlet como principal novidade. As mudanças de fundo entram em 2028.

A redação do Enem vai acabar em 2028?
Não há indicação de fim. Está em estudo a posição da redação na prova e um novo formato, com a possibilidade de quatro textos somando cerca de 50 linhas e até quatro gêneros.

O Enem 2028 vai ter questão discursiva?
É uma possibilidade aberta pela nova estrutura, ainda sem confirmação de número. É um ponto para acompanhar.

O que esperar daqui em diante

Saí da reunião com duas conclusões. A primeira é que o Enem 2028 será, de fato, uma versão atualizada do Enem atual, com mudanças na matriz, nas questões, na redação e na lógica de avaliação. A segunda é que ainda há muito em construção, e é justamente por isso que informação de qualidade, sem alarmismo, será o melhor apoio para estudantes e famílias nos próximos meses.

Os documentos da matriz e dos padrões de desempenho ainda passarão por avaliação antes da versão final, e no Aprova Total vamos acompanhar cada etapa e atualizar este conteúdo à medida que forem divulgados.

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