Conheça a vida, obra e estilo de José Saramago
Entenda quem foi o autor, conheça suas principais obras, descubra as marcas do seu estilo e veja porque é tão importante para a Literatura

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José Saramago é um dos maiores nomes da literatura em Língua Portuguesa e um autor que aparece com frequência em provas do Enem e vestibulares.
Conhecido por seu estilo único e por suas reflexões profundas sobre a sociedade, ele marcou a literatura contemporânea com obras que desafiam o leitor tanto na forma quanto no conteúdo.
Por isso, neste artigo, você vai entender quem foi José Saramago, conhecer suas principais obras, identificar as características do seu estilo e descobrir como ele pode aparecer em questões dos principais processos seletivos.
NAVEGUE PELOS CONTEÚDOS
Quem foi José Saramago?
José Saramago nasceu em 16 de novembro de 1922, na pequena aldeia de Azinhaga, em Portugal. Filho de uma família humilde de trabalhadores rurais, teve uma infância simples, marcada por dificuldades financeiras que o impediram de seguir uma formação acadêmica tradicional.
Ainda jovem, mudou-se para Lisboa, onde trabalhou em diversas profissões antes de se consolidar como escritor. Foi serralheiro mecânico, funcionário público, editor, tradutor e jornalista. Essa trajetória diversa contribuiu para a construção de uma visão crítica e ampla da sociedade, algo que aparece fortemente em suas obras.
Apesar de ter publicado seu primeiro romance ainda jovem, o autor só alcançou reconhecimento literário décadas depois. Seu sucesso veio principalmente a partir dos anos 1980, quando lançou obras que passaram a chamar atenção pela originalidade da escrita e pela profundidade dos temas.
Saramago também era conhecido por seu posicionamento político e suas opiniões contundentes, especialmente sobre religião, poder e desigualdade social. Esse perfil crítico é essencial para entender sua produção literária.
O autor faleceu em 18 de junho de 2010, aos 87 anos, em sua residência na ilha de Lanzarote, na Espanha. A causa da morte foi a leucemia, doença contra a qual lutava há algum tempo. Sua morte marcou o fim de uma trajetória literária profundamente influente, deixando um legado que impacta leitores, estudantes e estudiosos da literatura em todo o mundo.
Prêmio Nobel da Literatura
Em 1988, José Saramago se tornou o primeiro autor de Língua Portuguesa a conquistar o Prêmio Nobel de Literatura.
A Academia Sueca destacou sua capacidade de, com parábolas cheias de imaginação, compaixão e ironia, tornar compreensível uma realidade muitas vezes complexa.
O reconhecimento consolidou sua importância no cenário literário mundial e ampliou ainda mais a visibilidade de suas obras.
Principais obras de José Saramago
A obra de José Saramago é extensa e marcada por romances que exploram situações inusitadas para discutir questões profundas da humanidade. Muitas de suas narrativas partem de uma ideia aparentemente simples, mas que se desdobra em reflexões complexas.
A seguir, conheça os principais livros do autor.
Memorial do Convento (1982)
Mais do que um romance histórico, Memorial do Convento constrói uma narrativa que contrapõe o poder da monarquia e da Igreja à vida do povo comum. A obra acompanha a construção do Convento de Mafra, realizada por ordem de D. João V, enquanto desenvolve a história de Baltasar e Blimunda, personagens que representam o olhar humano e sensível diante de um projeto grandioso e opressor.
Saramago mistura fatos históricos com elementos fantásticos, como a "passarola", uma máquina voadora movida por vontades humanas, criando uma narrativa que questiona o autoritarismo, a exploração do trabalho e o papel das instituições. Fique atento(a) a:
- crítica ao poder absoluto (monarquia e Igreja);
- contraste entre história oficial e história do povo;
- presença do fantástico com função simbólica;
- narrador irônico e crítico;
- relação entre amor (Baltasar e Blimunda) e resistência.
O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984)
Nesta obra, Saramago traz para a ficção o heterônimo de Fernando Pessoa, Ricardo Reis, que retorna a Portugal após a morte do poeta. O romance se passa em um contexto histórico importante - a ascensão do fascismo na Europa - e mistura literatura, filosofia e política.
A narrativa é marcada por diálogos entre Ricardo Reis e o "fantasma" de Fernando Pessoa, criando uma reflexão sobre identidade, existência e o papel do indivíduo diante da história. Para as provas, observe:
- intertextualidade com Fernando Pessoa;
- reflexões filosóficas sobre vida e morte;
- contexto histórico (regimes autoritários na Europa);
- personagem passivo diante da realidade;
- questionamento sobre identidade e existência.
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A Jangada de Pedra (1986)
A obra parte de uma premissa fantástica: a Península Ibérica se desprende da Europa e passa a flutuar pelo oceano. A partir dessa situação inusitada, o autor constrói uma forte alegoria sobre identidade cultural, pertencimento e relações políticas.
Ao longo da narrativa, diferentes personagens atravessam esse cenário em transformação, refletindo sobre o que significa ser parte de um território e, principalmente, o que acontece quando esse território se rompe.
O vestibular pode abordar:
- crítica política e geográfica (Europa e Península Ibérica);
- discussão sobre identidade coletiva;
- narrativa simbólica (não literal);
- personagens como representantes de ideias.
O Evangelho segundo Jesus Cristo (1991)
Nesta obra, Saramago propõe uma releitura profundamente humana e crítica da figura de Jesus Cristo. Diferente da narrativa bíblica tradicional, Jesus é apresentado como um homem que questiona seu destino e enfrenta conflitos internos, especialmente diante de Deus.
O romance causou grande polêmica, principalmente em Portugal, por sua visão crítica da religião e por humanizar figuras consideradas sagradas. Entre os pontos importantes estão:
- releitura crítica de textos religiosos;
- humanização de personagens bíblicos;
- questionamento do papel de Deus;
- conflito entre destino e livre-arbítrio;
- crítica às instituições religiosas.
Ensaio sobre a cegueira (1995)
Considerada sua obra mais famosa, Ensaio sobre a cegueira apresenta uma epidemia inexplicável de cegueira que se espalha rapidamente por uma cidade. A partir disso, a sociedade entra em colapso, revelando comportamentos extremos como violência, egoísmo e perda de valores éticos.

A cegueira, na obra, funciona como uma metáfora: não é apenas física, mas moral e social. Saramago expõe a fragilidade das estruturas sociais e questiona até que ponto a civilização se sustenta.
Em provas, é comum aparecerem questões focadas no significado simbólico da cegueira, não apenas na história.
Outros destaques são a ausência de nomes próprios (universalização dos personagens) e a forte presença de metáforas.
Todos os Nomes (1997)
Mais introspectivo, Todos os Nomes acompanha a vida de um funcionário público que trabalha em um arquivo de registros civis. Sua rotina muda quando ele se interessa por uma mulher desconhecida, iniciando uma busca que mistura obsessão, identidade e sentido da existência.
A obra é menos impactante ou "explosiva" que outras, mas extremamente profunda, abordando temas como anonimato, burocracia e solidão na sociedade moderna. Por isso, o estudante deve se lembrar da:
- crítica à burocracia e à desumanização;
- busca por identidade;
- solidão e anonimato;
- narrativa introspectiva;
- e do personagem comum como protagonista.
Características do estilo de José Saramago
Uma das maiores marcas de José Saramago é seu estilo de escrita, considerado inovador e, para muitos leitores, desafiador. Ao contrário de narrativas tradicionais, ele rompe com diversas convenções da escrita, criando uma experiência de leitura única.
Sua narrativa apresenta forte influência da oralidade, com frases longas e parágrafos extensos, criando um fluxo contínuo que se aproxima da fala humana.
Além disso, o autor utiliza pouca pontuação convencional, abandonando elementos como travessões nos diálogos e organizando o texto principalmente por meio de vírgulas e pontos finais, o que exige maior atenção do leitor.
Outro aspecto marcante é a presença de um narrador interventivo, que dialoga com o leitor, comenta a própria narrativa e provoca reflexões ao longo do texto. Essa construção cria uma leitura densa, porém imersiva, em que forma e conteúdo se complementam para reforçar a crítica social e política presente em suas obras.
Assim, Saramago constrói uma prosa única, que desafia o leitor e transforma a leitura em uma experiência ativa e reflexiva.
Principais características
Em resumo, as principais características da escrita de José Saramago são:
- Pouca pontuação: o autor utiliza poucos pontos finais e vírgulas, criando períodos longos e contínuos;
- Diálogos sem travessão: as falas dos personagens aparecem no meio do texto, sem marcações tradicionais;
- Parágrafos extensos: muitas vezes, um único parágrafo ocupa páginas inteiras;
- Narrador interventivo: o narrador não é neutro, pois comenta, opina e dialoga com o leitor;
- Linguagem próxima da oralidade: apesar da complexidade estrutural, o texto se aproxima da forma como falamos.
💡 Esse estilo exige do leitor a capacidade de identificar mudanças de fala e a interpretação de ideias implícitas. Isso pode aparecer em questões sobre o narrador, o ponto de vista ou a construção do texto.
Temas abordados nas obras
Além do estilo, outro ponto fundamental para entender Saramago são os temas que ele aborda. Suas obras não são apenas histórias: são reflexões profundas sobre o mundo e a sociedade.
- Condição humana: o autor explora como as pessoas agem em situações extremas, revelando fragilidades e contradições;
- Poder e política: há uma crítica constante às estruturas de poder e às injustiças sociais;
- Religião e fé: Saramago questiona dogmas religiosos e apresenta visões alternativas sobre temas espirituais;
- Sociedade contemporânea: suas obras funcionam como espelhos da realidade, mesmo quando utilizam elementos fictícios;
- Ética e moral: os personagens frequentemente enfrentam dilemas morais complexos.
Saramago também costuma usar situações irreais, como uma epidemia de cegueira, para discutir problemas reais. Isso é chamado de alegoria, um recurso muito explorado em provas.
Exercícios sobre José Saramago no Enem e vestibulares
José Saramago é um autor relevante para o Enem porque suas obras exigem interpretação, análise crítica e compreensão de linguagem, exatamente as competências cobradas na prova.
Além disso, já fez parte de listas de leituras obrigatórias de diversos vestibulares. Por isso, vamos conferir algumas questões que já apareceram em provas!
-- parei aqui
Exemplo de questão sobre Saramago no Enem
(Enem 2017) O homem disse, Está a chover, e depois, Quem é você, Não sou daqui, Anda à procura de comida, Sim, há quatro dias que não comemos, E como sabe que são quatro dias, É um cálculo, Está sozinha, Estou com o meu marido e uns companheiros, Quantos são, Ao todo, sete; Se estão a pensar em ficar conosco, tirem daí o sentido, já somos muitos, Só estamos de passagem, Donde vêm, Estivemos internados desde que a cegueira começou, Ah, sim, a quarentena, não serviu de nada. Porque diz isso, Deixaram-nos sair, Houve um incêndio e nesse momento percebemos que os soldados que nos vigiavam tinham desaparecido, E saíram, Sim, Os vossos soldados devem ter sido dos últimos a cegar, toda a gente está cega, Toda a gente, a cidade toda, o país.
SARAMAGO, J. Ensaio sobre a cegueira. São Paulo: Cia. das Letras. 1995.
A cena retrata as experiências das personagens em um país atingido por uma epidemia. No diálogo, a violação de determinadas regras de pontuação
a) revela uma incompatibilidade entre o sistema de pontuação convencional e a produção do gênero romance.
b) provoca uma leitura equivocada das frases interrogativas e prejudica a verossimilhança.
c) singulariza o estilo do autor e auxilia na representação do ambiente caótico.
d) representa uma exceção às regras do sistema de pontuação canônica.
e) colabora para a construção da identidade do narrador pouco escolarizado.
Resposta: [C]
Saramago inovou na maneira como utiliza o ponto final e a vírgula (que ele prefere chamar de sinais de pausa) marcando a frase com outro ritmo dado pela oralidade, um ritmo prosódico que é típico de quem fala a língua. No excerto do enunciado, o início da fala de cada personagem é assinalado apenas por uma capitular, formando diálogos dispostos em sequência acelerada coerente com o ambiente caótico em que decorre a narrativa.
Exemplo de questão sobre Saramago no vestibular
(Unicamp 2020) Ao descrever a rotina do protagonista Raimundo Silva, o narrador da História do Cerco de Lisboa afirma que só restaram fragmentos dos sonhos noturnos, "imagens insensatas aonde a luz não chega, indevassáveis até para os narradores, que as pessoas mal informadas acreditam terem todos os direitos e disporem de todas as chaves".
(José Saramago, História do Cerco de Lisboa. São Paulo: Companhia das Letras, 1989, p.122.)
Com base nesse excerto e relacionando-o ao conjunto do romance, é correto afirmar que o
a) narrador é polifônico, pois, ao considerar todos os pontos de vista das personagens, relativiza a visão de mundo e respeita a privacidade delas.
b) observador, pois dissimula sua avaliação política da realidade ao se mostrar empático ao mundo das personagens.
c) protagonista, pois, ao fazer parte da própria narrativa, assemelha-se às demais personagens e não pode duvidar dos protocolos necessários para contar a história de Portugal.
d) onisciente, pois simula ser tolerante com a pluralidade de vozes narrativas, mas é a singularidade de seu modo de narrar que produz a coesão e a autonomia da narração.
Resposta: [D]
É correta a opção [D], pois a obra apresenta um narrador onisciente intruso na terceira pessoa, que enuncia opiniões e critica a mentalidade católica medieval, estabelecendo um contraponto com a história oficial, que valorizava o exército católico na tomada de Lisboa aos mouros.





