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Segunda geração modernista: autores, temas e principais obras

Ao contrário da primeira geração, que focava na experimentação estética, a segunda geração foi marcada por um realismo crítico, regionalismo, introspecção psicológica, e uma linguagem mais elaborada e densa

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A segunda geração modernista no Brasil, também conhecida como a geração de 1930, trouxe uma nova roupagem à literatura nacional. Diferente da primeira geração, marcada pela busca por liberdade estética e pela experimentação formal, a segunda geração se voltou para questões sociais, regionais e psicológicas, refletindo a realidade do Brasil da época. 

Neste post, vamos explorar os principais pontos da segunda geração modernista, seus autores, obras e como esse período se diferencia das outras fases do modernismo no Brasil.

O que foi a segunda geração modernista?

A segunda geração modernista teve início em 1930 e se estendeu até a década de 1940. Esse período foi caracterizado por um engajamento maior com a realidade social e política do país, ao contrário da fase anterior, que estava mais voltada para a forma e a liberdade estética.

O modernismo no Brasil na segunda fase procurou refletir a crise econômica, política e social do Brasil, especialmente após a Revolução de 1930 e a Era Vargas.

Ao contrário da primeira geração, que focava na experimentação estética, a segunda geração foi marcada por um realismo crítico, regionalismo, introspecção psicológica, e uma linguagem mais elaborada e densa.

Características da segunda fase do modernismo

A segunda geração modernista se distingue da primeira por suas preocupações com as questões sociais, culturais e políticas do Brasil. Vamos conhecer algumas de suas principais características:

  • Realismo crítico: a literatura da segunda geração modernista apresenta uma visão crítica da sociedade. Aborda problemas como a pobreza, as desigualdades sociais e os conflitos regionais.
  • Regionalismo: a literatura dessa fase dá grande importância às particularidades das regiões brasileiras, principalmente o nordeste. Retrata o sertão e a vida rural com um olhar mais atento à miséria e às dificuldades.
  • Introspecção psicológica: os autores começam a explorar mais profundamente o interior dos personagens, seus conflitos existenciais e psíquicos.
  • Temas sociais: são abordadas questões como o preconceito social, a opressão, a luta de classes e a resistência do povo frente às dificuldades.
  • Linguagem elaborada: embora o experimentalismo ainda estivesse presente, a linguagem da segunda fase do modernismo é mais cuidadosa e estruturada, refletindo a seriedade e a profundidade dos temas abordados.
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Principais autores da geração de 1930

A geração de 1930 foi formada por autores que se destacaram pela análise crítica da sociedade brasileira. Eles buscavam entender as raízes dos problemas sociais e culturais do país. Alguns dos mais importantes nomes desse período incluem:

Graciliano Ramos

Graciliano Ramos é um dos maiores nomes da segunda geração modernista. Seu trabalho reflete a vida no sertão nordestino e os dramas da população rural. Sua escrita é marcada por uma linguagem concisa e direta, e seus livros exploram temas como a miséria, o isolamento e a opressão.

Principais obras:

  • Vidas Secas (1938): retrata a vida de uma família de retirantes nordestinos em meio à seca e à pobreza.
  • São Bernardo (1934): foca na história de um fazendeiro que reflete sobre sua trajetória e as implicações de suas ações.

Jorge Amado

Jorge Amado é outro grande nome dessa geração. Seus romances muitas vezes abordam a cultura popular baiana e o enfrentamento de injustiças sociais, com uma narrativa rica em personagens vivos e problemáticas sociais evidentes.

Principais obras:

  • Cacau (1933): relata a luta de trabalhadores nas plantações de cacau no sul da Bahia.
  • Capitães da Areia (1937): retrata a vida de crianças e adolescentes nas ruas de Salvador, abordando temas como exclusão social e violência.

José Lins do Rego

José Lins do Rego é conhecido por seus romances sobre a vida no nordeste, especialmente no contexto da decadência dos engenhos de açúcar e da vida rural no estado da Paraíba.

Principais obras:

  • Menino de Engenho (1932): retrata a vida de um jovem que cresce em uma fazenda de cana-de-açúcar no nordeste.
  • Fogo Morto (1943): enfoca a decadência dos engenhos de açúcar e a mudança social e econômica no nordeste.

Rachel de Queiroz

Rachel de Queiroz foi uma das primeiras escritoras a se destacar na segunda geração modernista, e seus romances frequentemente abordam a luta das mulheres e as questões do nordeste.

Principais obras:

  • O Quinze (1930): romance que descreve a seca de 1915 no nordeste e os impactos da fome e da miséria.
  • As Três Marias (1939): uma obra sobre a busca das mulheres por identidade e liberdade.

Principais obras da Geração de 30 e seus temas centrais

A geração de 1930 produziu algumas das obras mais importantes da literatura brasileira, que continuam a ser cobradas em vestibulares, como o Enem. A seguir, destacamos as principais obras dessa fase, com uma análise resumida dos temas centrais:

Vidas Secas, de Graciliano Ramos

A obra conta a história de uma família de retirantes nordestinos, composta por Fabiano, sua esposa Sinhá Vitória, seus filhos e o cachorro Baleia. Eles enfrentam uma longa e cruel seca no sertão, lutando pela sobrevivência em meio à miséria e ao abandono do poder público.

Fabiano, um homem simples e rude, tenta, sem muito sucesso, adaptar-se às dificuldades impostas pela natureza e pela falta de recursos. A obra foca no sofrimento de seus filhos e na percepção de que sua vida está atrelada a um destino de opressão.

Vidas Secas é uma forte crítica social ao abandono dos nordestinos e às dificuldades enfrentadas pela população rural no Brasil. Graciliano Ramos utiliza uma linguagem seca e direta, refletindo a aridez do sertão e a vida desolada de seus personagens.

Destaca a luta pela dignidade humana em um cenário de opressão, abordando temas como a alienação, o sofrimento humano e a resistência diante da adversidade. A relação entre os personagens e o ambiente hostil reflete a crítica a um Brasil desigual, onde a miséria parece ser uma condição natural e permanente.

Capitães da Areia, de Jorge Amado

A obra narra a história de um grupo de meninos de rua que vivem em Salvador, no início do século 20. O grupo é liderado por Pedro Bala, um jovem carismático e destemido, e composto por crianças e adolescentes abandonados pela sociedade. Eles vivem de pequenos furtos e sobreviver nas ruas é sua única realidade.

O enredo mostra a relação entre esses meninos e a sociedade que os marginaliza, explorando a amizade, a lealdade e a luta por um futuro melhor, apesar das adversidades.

Capitães da Areia apresenta uma crítica contundente à desigualdade social e à marginalização das classes mais pobres, com foco nos menores abandonados e nas injustiças que enfrentam. Também é um retrato da luta pela identidade e pelo pertencimento, temas muito caros à geração de 1930.

Jorge Amado utiliza uma linguagem simples e direta, aproximando-se da oralidade e da vivência cotidiana dos personagens. Além disso, a obra é marcada pelo tom realista e pela denúncia das condições de vida desses meninos, questionando a omissão do Estado e a violência estrutural.

Menino de Engenho, de José Lins do Rego

O livro conta a história de Carlinhos, um garoto que cresce em uma fazenda de cana-de-açúcar no interior da Paraíba. A narrativa se passa no começo do século 20, e Carlinhos vive entre os conflitos familiares e as mudanças do campo.

Aborda sua relação com o pai, o coronel, e as personagens que cercam a fazenda, como os empregados e a mãe. A vida de Carlinhos é marcada pela tentativa de compreender o que acontece em torno dele, enquanto presencia a decadência da sociedade agrária e as transformações da região.

Menino de Engenho é um retrato da decadência dos engenhos de açúcar, tema recorrente no regionalismo da geração de 1930. Explora a perda de valores e a passagem do tempo, além de refletir sobre as tensões entre o sistema patriarcal rural e as mudanças que começam a afetar as relações sociais e familiares.

O autor utiliza uma linguagem rica em detalhes e uma construção literária que evoca o universo nordestino, com uma análise crítica da sociedade agrária e suas contradições. A história do protagonista, que se torna consciente das dificuldades ao seu redor, serve como metáfora para a transição de uma época de opressão para uma de mudanças inevitáveis.

O Quinze, de Rachel de Queiroz

O Quinze descreve a seca de 1915 no nordeste do Brasil e seus efeitos sobre a população, especialmente em um pequeno povoado no Ceará. A história segue várias personagens, incluindo o jovem Chico, que enfrenta as dificuldades da seca, e sua mãe, Maria, que luta para proteger a família em meio ao sofrimento.

A obra revela o drama das pessoas atingidas pela seca e pelo desamparo social, mostrando a vida árdua e a resistência do povo nordestino diante da adversidade.

É também um exemplo clássico do regionalismo da geração de 1930, com ênfase na miséria, no abandono e na luta pela sobrevivência. A seca de 1915 não é apenas um evento climático, mas simboliza a incapacidade do Estado em resolver os problemas do nordeste e a desigualdade social que permeia o Brasil.

O Quinze se destaca por sua escrita envolvente e emotiva, ao mesmo tempo que traz uma crítica contundente às estruturas sociais que mantêm os nordestinos em um ciclo de pobreza e opressão. 

Comparação com outras fases modernistas

A segunda geração modernista se distingue não só da primeira geração, mas também da terceira, no que diz respeito aos seus focos e experimentações literárias.

  • Rupturas com a 1ª geração: a primeira geração foi marcada pelo futurismo e pela liberdade formal, enquanto a segunda geração teve um foco mais voltado para o realismo crítico e regionalismo, com uma abordagem mais direta e menos experimental.
  • Transição para a 3ª geração: já a terceira geração foi mais focada no questionamento existencial, em temas como a metalinguagem e as crises individuais, rompendo com a perspectiva regionalista da segunda fase.

Resumo: Segunda geração modernista

A segunda geração modernista, ou geração de 1930, se destaca por uma literatura focada em questões sociais, econômicas e políticas, especialmente as dificuldades do nordeste brasileiro.

Diferente da primeira geração, que buscava experimentação estética, essa fase abordou temas como miséria, opressão social e desigualdade. Tudo com realismo crítico e linguagem mais elaborada.

Autores como Graciliano Ramos, Jorge Amado, José Lins do Rego e Rachel de Queiroz retrataram a vida no sertão, os conflitos familiares e a luta pela sobrevivência.

Obras como Vidas Secas, Capitães da Areia, Menino de Engenho e O Quinze são exemplos dessa crítica social, que denuncia a exploração do povo e a falta de políticas públicas. Comparada às outras fases do modernismo, a segunda geração rompe com a experimentação formal da primeira e se aproxima da existencialidade da terceira geração.

Como a segunda geração modernista aparece no Enem e nos vestibulares

A segunda geração modernista é bastante cobrada nos vestibulares e no Enem, principalmente por meio de análise de suas principais obras e características.

O Enem costuma abordar a literatura brasileira de forma contextualizada, exigindo que o aluno compreenda o impacto social, político e cultural dos textos dessa fase. Algumas questões podem explorar a crítica social nas obras de Graciliano Ramos, a luta dos personagens nas histórias de Jorge Amado e a representação da seca no nordeste em Rachel de Queiroz.

Confira a seguir dois exemplos de questões para entender melhor como a geração de 30 cai nas provas!

Exemplo 1

(Enem 2024)  — Vá para o inferno, Gondim. Você acanalhou o troço. Está pernóstico, está safado, está idiota. Há lá ninguém que fale dessa forma!

Azevedo Gondim apagou o sorriso, engoliu em seco, apanhou os cacos da sua pequenina vaidade e replicou amuado que um artista não pode escrever como fala.

— Não pode? — perguntei com assombro. E por quê? Azevedo Gondim respondeu que não pode porque não pode.

— Foi assim que sempre se fez. A literatura é a literatura, seu Paulo. A gente discute, briga, trata de negócios naturalmente, mas arranjar palavras com tinta é outra coisa. Se eu fosse escrever como falo, ninguém me lia.

RAMOS, G. São Bernardo. Rio de Janeiro: Record, 2009.

Nesse fragmento, a discussão dos personagens traz à cena um debate acerca da escrita que

a) diferencia a produção artística do registro padrão da língua.

b) aproxima a literatura de dialetos sociais de pouco prestígio.

c) defende a relação entre a fala e o estilo literário de um autor.

d) contrapõe o preciosismo linguístico a situações de coloquialidade.

e) associa o uso da norma culta à ocorrência de desentendimentos pessoais. 

Resposta: [D]
O diálogo no trecho contrapõe o preciosismo linguístico à linguagem coloquial, destacando a divergência entre o uso de uma escrita rebuscada e a naturalidade da fala cotidiana. Paulo Honório critica Gondim pelo uso de uma linguagem formal e pouco natural, enquanto Gondim defende que a literatura exige uma linguagem diferente da fala comum, sugerindo que uma escrita coloquial seria mal-recebida.

Exemplo 2

(UFSC 2020)  NOITE DE GRANDE PAZ

OS CAPITÃES DA AREIA OLHAM MÃEZINHA DORA, a irmãzinha Dora, Dora noiva, Professor vê Dora, sua amada. Os Capitães da Areia olham em silêncio. A mãe-de-santo Don’Aninha reza oração forte para a febre que consome Dora desaparecer. Com um galho de sabugueiro manda que a febre se vá. 1Os olhos febris de Dora sorriem. Parece que a grande paz da noite da Bahia está também nos seus olhos.

Os Capitães da Areia olham em silêncio 2sua mãe, irmã e noiva. Mal a recuperaram, a febre a derrubou. Onde está a alegria dela, por que ela não corre picula com seus filhinhos menores, não vai para a aventura das ruas com seus irmãos negros, brancos e mulatos? Onde está a alegria dos olhos dela? Só uma grande paz, a grande paz da noite. Porque Pedro Bala aperta sua mão com calor.

A paz da noite da Bahia não está no coração dos Capitães da Areia. Tremem com receio de perder Dora. Mas a grande paz da noite está nos olhos dela. Olhos que se fecham docemente, enquanto a mãe-de-santo Aninha enxota a febre que a devora.

A paz da noite envolve o trapiche.

AMADO, Jorge. Capitães da Areia. São Paulo: Companhia das Letras, 2008, p. 219.

Com base no texto e na leitura integral de Capitães da Areia, de Jorge Amado, originalmente publicada em 1937, no contexto sócio-histórico e literário da obra e, ainda, de acordo com a variedade padrão da língua escrita, é correto afirmar que: 

01) em “sua mãe, irmã e noiva” (referência 2), o autor faz referência a três personagens diferentes que integram o bando.   

02) a febre que acomete a personagem é resultado de uma tuberculose, da qual Dora acaba se recuperando mais tarde.    

04) o excerto explora a sinestesia em “Os olhos febris de Dora sorriem” (referência 1).   

08) ao longo da obra, ocorre uma epidemia entre as personagens mais pobres que não atinge a elite baiana, branca, rica e bem nutrida.   

16) Jorge Amado é um dos integrantes da Geração de 30, importante momento do romance brasileiro, ao lado de escritores como Graciliano Ramos, Erico Verissimo e Rachel de Queiroz.    

Resposta: 04 + 16 = 20
Os itens [01], [02] e [08] são incorretos, pois 
[01] em “sua mãe, irmã e noiva” (referência 2), o autor faz referência a um único personagem, Dora.
[02] a febre que acomete a personagem é resultado da varíola, que acaba vitimando Dora. 
[08] ao longo da obra, ocorre uma epidemia em toda a cidade, mas que vai ser fatal para as personagens mais pobres que, ao contrário das classes ricas, não tinham tido acesso à vacina contra a doença. 

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Kimberli Ariotti Sabino

Licenciada em Letras pela UFSC, com mestrado em Linguística pela mesma instituição. Colaborou com o blog do Aprova Total.

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